
Todos os textos que escrevi durante os 10 anos (mais ou menos) que duraram os Anjos de Prata, e outras coisinhas mais. Sou grata a todos os anjos e ao inesquecível Mario Prata. Continuamos firmes na amizade, embora o site tenha acabado, e temos 9 livros juntos. Bom demais.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
sábado, 15 de janeiro de 2011
Tema 136 - FASCINAÇÃO
DOCE PÁSSARO DA JUVENTUDE
Mariazinha Cremasco
mas sempre tem a cama pronta,
e rango no fogão- Lulu Santos) -
Na sua primeira visita ao pediatra, eu não conseguia parar de chorar. Ele me disse, com carinho e ternura (ah, bendito dr. Elbe):
- Maria, um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.
Tomei isso como verdade absoluta (hoje eu sei que cai, sim) e resolvi viver melhor.
Traumatizada pela perda de um filho, apenas três meses antes de você nascer, tinha medo que ficasse doente também. E você chegou já cheio de responsabilidades. Tão pequenino e indefeso, e com um papel tamanho neste mundo. Ao contrário do seu irmão, era moreninho de enormes olhos castanhos. Veio para alegrar e dar cor novamente às nossas vidas. Temi pela sua integridade mental, uma vez que ainda me sentia perturbada, atordoada pelos tristes acontecimentos recentes.
"Um raio não cai duas vezes num mesmo lugar. Cada filho é um filho. Único. Não faça comparações. Não crie seu filho numa redoma de vidro."
Sábios conselhos do Dr. Elbe, a quem serei grata por toda a minha vida. Coloquei esses ensinamentos no meu dia a dia, e repetia como se fosse um mantra. E você foi crescendo, com os imensos olhos castanhos sempre inquisidores, atentos a tudo. Inteligente, esperto. Um escorpiano dos bons. Em toda a sua trajetória de bom menino, bom amigo, bom rapaz, bom homem. Com defeitos e acertos. Um grande ser humano, de personalidade forte. Do pré ao colegial no Regina Mundi, da sua entrada na PUC para cursar Economia (eu não me conformava - como alguém poderia gostar disso?). Como esquecer você, a cabeça raspada, meu menino/homem de bermudas e tênis, do corpo tão lindo, tão cedo na faculdade? Das aulas de inglês e natação, de nossas idas e vindas juntos a todos os lugares, dos seus ciúmes de mim, que eu amava e achava tanta graça.
Seu primeiro carro, lembra? (quando o filho aprende a dirigir, a mãe não serve mais como motorista), do primeiro emprego. A saída de casa, para morar e trabalhar em Campinas, a montagem do apartamento, a pós graduação, que escolheu e enfrentou tudo sozinho. Ontem, ao deixá-lo no aeroporto, para mais uma etapa de sua vida, olhei novamente seus olhos castanhos e francos, com fascinação. Meu menino é um homem e parte para outro país.
Não me dou o direito de estar triste com a sua ausência. Sinto orgulho de você, que percebe nessa viagem, o reconhecimento de um trabalho, seu crescimento pessoal, o sucesso na carreira. E você merece, filho. Merece cada pequena vitória. Você lutou para isso. De bermuda e tênis ou de terno e gravata, você será sempre o meu menino, levado, sapeca, terrível, uma criança adorável cujos olhos encantam.
Seja feliz, Bruno.
Eu estarei sempre esperando, com a cama pronta e o rango no fogão.
Mariazinha Cremasco
mas sempre tem a cama pronta,
e rango no fogão- Lulu Santos) -
Na sua primeira visita ao pediatra, eu não conseguia parar de chorar. Ele me disse, com carinho e ternura (ah, bendito dr. Elbe):
- Maria, um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.
Tomei isso como verdade absoluta (hoje eu sei que cai, sim) e resolvi viver melhor.
Traumatizada pela perda de um filho, apenas três meses antes de você nascer, tinha medo que ficasse doente também. E você chegou já cheio de responsabilidades. Tão pequenino e indefeso, e com um papel tamanho neste mundo. Ao contrário do seu irmão, era moreninho de enormes olhos castanhos. Veio para alegrar e dar cor novamente às nossas vidas. Temi pela sua integridade mental, uma vez que ainda me sentia perturbada, atordoada pelos tristes acontecimentos recentes.
"Um raio não cai duas vezes num mesmo lugar. Cada filho é um filho. Único. Não faça comparações. Não crie seu filho numa redoma de vidro."
Sábios conselhos do Dr. Elbe, a quem serei grata por toda a minha vida. Coloquei esses ensinamentos no meu dia a dia, e repetia como se fosse um mantra. E você foi crescendo, com os imensos olhos castanhos sempre inquisidores, atentos a tudo. Inteligente, esperto. Um escorpiano dos bons. Em toda a sua trajetória de bom menino, bom amigo, bom rapaz, bom homem. Com defeitos e acertos. Um grande ser humano, de personalidade forte. Do pré ao colegial no Regina Mundi, da sua entrada na PUC para cursar Economia (eu não me conformava - como alguém poderia gostar disso?). Como esquecer você, a cabeça raspada, meu menino/homem de bermudas e tênis, do corpo tão lindo, tão cedo na faculdade? Das aulas de inglês e natação, de nossas idas e vindas juntos a todos os lugares, dos seus ciúmes de mim, que eu amava e achava tanta graça.
Seu primeiro carro, lembra? (quando o filho aprende a dirigir, a mãe não serve mais como motorista), do primeiro emprego. A saída de casa, para morar e trabalhar em Campinas, a montagem do apartamento, a pós graduação, que escolheu e enfrentou tudo sozinho. Ontem, ao deixá-lo no aeroporto, para mais uma etapa de sua vida, olhei novamente seus olhos castanhos e francos, com fascinação. Meu menino é um homem e parte para outro país.
Não me dou o direito de estar triste com a sua ausência. Sinto orgulho de você, que percebe nessa viagem, o reconhecimento de um trabalho, seu crescimento pessoal, o sucesso na carreira. E você merece, filho. Merece cada pequena vitória. Você lutou para isso. De bermuda e tênis ou de terno e gravata, você será sempre o meu menino, levado, sapeca, terrível, uma criança adorável cujos olhos encantam.
Seja feliz, Bruno.
Eu estarei sempre esperando, com a cama pronta e o rango no fogão.
Tema 138- VAMPIRO
ATÉ A ÚLTIMA GOTA
Mariazinha Cremasco
Djalma tinha quarenta e poucos anos. Barba ruiva, olhos espertos, mãos pequenas e delicadas.
Havia quem dissesse que era gay.
Casado com Olivia, pai de Débora, aparentemente frágil e desinteressante quando ao lado da mulher, a quem fazia questão de chamar "minha esposa".
Olívia, mimada e cheia de vontades, fazia dele gato e sapato. Personalidade forte, inteligentíssima, rosto lindo, corpo feio e extremamente gordo, porém dotada de uma auto-estima invejável. Talvez, essa auto-estima fosse a responsável pela admiração que causava em quase todos que a conheciam, e que não enxergavam sequer seus piores defeitos.
Realmente, quem olhava para Olívia, só enxergava seu extremo carisma, seu sorriso contagiante, sua alegria de viver, o amor que dedicava à vida e principalmente a si mesma.
Djalma fazia-lhe todos os gostos. Perto dela, ficava ainda menor, desemxabido, parecia mais um asno, um imbecilóide do que um engenheiro bem sucedido.
Seus olhos pareciam para-brisas olhando de soslaio pra lá e pra cá. Um periscópio, captando imagens de Olívia por todos os lados. Ela era o seu maior bem, e todo o seu mal.
Pois é. Djalma tinha sucesso na profissão, e quando longe da mulher, mantinha a espinha ereta, o olhar altivo. Sabia falar e se comportar, dava sugestões e tinha grandes idéias. Isso lhe rendia um alto salário, que alimentava os luxos da mulher.
Débora, a filha mimada pelo pai e sem qualquer carinho da mãe, era antipática, fria, briguenta, birrenta, insuportável.
Moravam num bairro de classe média alta, muito perto de um dos mais caros colégios da cidade. Olívia recusava-se a levar a filha para a escola. Seus dias eram só seus. Débora ia e voltava com o ônibus escolar, saía horas antes de casa, por causa da boa vida da mãe.
Olívia na sua mesquinhez total, e sempre preocupada com seu próprio umbigo, vivia de olho nos homens. Todos a olhavam e a cobiçavam. Todos na verdade é exagero.
Que desculpem o pré-conceito, que na verdade nem é meu, mas os homens que se interessavam por ela sempre eram operários, de nível cultural, social e econômico, muito abaixo do dela, bibliotecária que nunca tinha exercido a profissão.
De amante em amante, ela vivia a vida. E costumava dizer com a voz cheia de personalidade, como se fosse a dona da total verdade:
- Djalma, a culpa é sua. Desde quando nos casamos eu avisei que gostava muito de sexo. Você nunca correspondeu às minhas expectativas.
E o pobre homem curvava-se e encolhia diante de tais palavras.
Os porteiros do prédio riam dele. Diziam que ele não cabia mais no elevador por conta do tamanho dos chifres.
E não se sabe porque Djalma aguentava tanto. Ela teve tantos amantes que chegou ao ponto de recebê-los em casa nos horários de aula da filha. Djalma no fundo sabia, mas era um dependente daquela mulher e isso nunca se entendeu ao certo.
Uma das frases preferidas de Olívia, que deixava o pobre homem arrasado:
- Como posso ser feliz com um homem que tem ejaculação precoce, mau hálito e pau pequeno?
- Você sabia que eu era assim antes de nos casarmos.
- Mas você deveria ter mudado, eu pedi que procurasse ajuda, médicos, psicólogos. Agora aguente, Djalma.
Até que um dia ela se apaixonou de verdade pelo funcionário de uma autorizada de carros. O amante era bonitão, cheiroso, e entrava na casa como todos os outros: pelo elevador de serviço.
Foi com Leopoldo que Olívia aprendeu o que era sofrer. Leopoldo, casado, pai de três filhos, aproveitava-se do amor de Olívia, e a extorquia como podia.
Claro que Djalma ficou sabendo, e ficava feliz vendo o sofrimento da mulher. Dizia para si mesmo: "Ela merece. Farão com ela o que faz comigo."
Nunca alguém entendeu esse relacionamento tão estúpido. Por que ele não se separava dela? - perguntavam-se todos.
Um dia, entendi o que acontecia. Djalma gostava mesmo era de sofrer, de se lamentar aos amigos.
Sentia um prazer doentio em sofrer, e ser vampirizado por ela, que o sugava de todas as formas.
Implorava-lhe sexo, e ela negava. Rastejava por amor, humilhando-se.
Um dia Djalma ficou na espreita esperando a hora que o amante subisse pelo elevador de serviço. Deixou que passasse dez, quinze minutos, para depois subir pelo elevador social.
Os porteiros ficaram entre assustados e felizes. Finalmente aquele corno ia pegar a gorda com seu amante pobre.
Djalma entrou pela sala, silencioso e ágil como uma raposa , e deliciou-se ao ouvir os gritos de prazer que vinham do seu próprio quarto.
Aproximou-se para assistir à cena. Olívia fazia com aquele homem o que sempre se recusara a fazer com ele. Ao invés de estar indignado, raivoso, Djalma estava excitado. Como amava aquela mulher, que prazer e dor aquela cena lhe proporcionava.
Naquele momento tudo o que Djalma queria era o sexo a três. Lembrou-se que um dia chegara a propor à Olívia ir a uma casa de swing, coisa que ela recusou injuriadíssima. Como? Ela? Uma mãe de família? Era mesmo muito contraditória e engraçada essa mulher.
Enquanto Leopoldo urrava sobre Olívia, já quase chegando ao orgasmo, Djalma com os olhos em chamas masturbava-se freneticamente, e sua respiração ofegante se fazia ouvir.
Olívia olhou assustada, e enxergou Djalma enquanto Leopoldo gozou.
Antes que o amante percebesse o que estava acontecendo, a mulher, furiosa, saiu da cama num pulo, com ódio por ter desperdiçado um orgasmo com seu amor, agarrou o marido pelo pescoço com as duas mãos, enquanto ele ao invés de se defender ficou totalmente à mercê de seu bem maior.
Num gesto de amor à Leopoldo e de ódio ao intruso, Olívia com uma força que só a insanidade pode fornecer, arrastou Djalma até a janela e inexplicavelmente levantou-o com as duas mãos, como se ele fosse um boneco de plástico e o atirou do décimo andar.
Djalma não mais seria sugado por ela. Com sua morte, acabou com a vida de Olívia, coisa que sempre quis fazer.
Mariazinha Cremasco
Djalma tinha quarenta e poucos anos. Barba ruiva, olhos espertos, mãos pequenas e delicadas.
Havia quem dissesse que era gay.
Casado com Olivia, pai de Débora, aparentemente frágil e desinteressante quando ao lado da mulher, a quem fazia questão de chamar "minha esposa".
Olívia, mimada e cheia de vontades, fazia dele gato e sapato. Personalidade forte, inteligentíssima, rosto lindo, corpo feio e extremamente gordo, porém dotada de uma auto-estima invejável. Talvez, essa auto-estima fosse a responsável pela admiração que causava em quase todos que a conheciam, e que não enxergavam sequer seus piores defeitos.
Realmente, quem olhava para Olívia, só enxergava seu extremo carisma, seu sorriso contagiante, sua alegria de viver, o amor que dedicava à vida e principalmente a si mesma.
Djalma fazia-lhe todos os gostos. Perto dela, ficava ainda menor, desemxabido, parecia mais um asno, um imbecilóide do que um engenheiro bem sucedido.
Seus olhos pareciam para-brisas olhando de soslaio pra lá e pra cá. Um periscópio, captando imagens de Olívia por todos os lados. Ela era o seu maior bem, e todo o seu mal.
Pois é. Djalma tinha sucesso na profissão, e quando longe da mulher, mantinha a espinha ereta, o olhar altivo. Sabia falar e se comportar, dava sugestões e tinha grandes idéias. Isso lhe rendia um alto salário, que alimentava os luxos da mulher.
Débora, a filha mimada pelo pai e sem qualquer carinho da mãe, era antipática, fria, briguenta, birrenta, insuportável.
Moravam num bairro de classe média alta, muito perto de um dos mais caros colégios da cidade. Olívia recusava-se a levar a filha para a escola. Seus dias eram só seus. Débora ia e voltava com o ônibus escolar, saía horas antes de casa, por causa da boa vida da mãe.
Olívia na sua mesquinhez total, e sempre preocupada com seu próprio umbigo, vivia de olho nos homens. Todos a olhavam e a cobiçavam. Todos na verdade é exagero.
Que desculpem o pré-conceito, que na verdade nem é meu, mas os homens que se interessavam por ela sempre eram operários, de nível cultural, social e econômico, muito abaixo do dela, bibliotecária que nunca tinha exercido a profissão.
De amante em amante, ela vivia a vida. E costumava dizer com a voz cheia de personalidade, como se fosse a dona da total verdade:
- Djalma, a culpa é sua. Desde quando nos casamos eu avisei que gostava muito de sexo. Você nunca correspondeu às minhas expectativas.
E o pobre homem curvava-se e encolhia diante de tais palavras.
Os porteiros do prédio riam dele. Diziam que ele não cabia mais no elevador por conta do tamanho dos chifres.
E não se sabe porque Djalma aguentava tanto. Ela teve tantos amantes que chegou ao ponto de recebê-los em casa nos horários de aula da filha. Djalma no fundo sabia, mas era um dependente daquela mulher e isso nunca se entendeu ao certo.
Uma das frases preferidas de Olívia, que deixava o pobre homem arrasado:
- Como posso ser feliz com um homem que tem ejaculação precoce, mau hálito e pau pequeno?
- Você sabia que eu era assim antes de nos casarmos.
- Mas você deveria ter mudado, eu pedi que procurasse ajuda, médicos, psicólogos. Agora aguente, Djalma.
Até que um dia ela se apaixonou de verdade pelo funcionário de uma autorizada de carros. O amante era bonitão, cheiroso, e entrava na casa como todos os outros: pelo elevador de serviço.
Foi com Leopoldo que Olívia aprendeu o que era sofrer. Leopoldo, casado, pai de três filhos, aproveitava-se do amor de Olívia, e a extorquia como podia.
Claro que Djalma ficou sabendo, e ficava feliz vendo o sofrimento da mulher. Dizia para si mesmo: "Ela merece. Farão com ela o que faz comigo."
Nunca alguém entendeu esse relacionamento tão estúpido. Por que ele não se separava dela? - perguntavam-se todos.
Um dia, entendi o que acontecia. Djalma gostava mesmo era de sofrer, de se lamentar aos amigos.
Sentia um prazer doentio em sofrer, e ser vampirizado por ela, que o sugava de todas as formas.
Implorava-lhe sexo, e ela negava. Rastejava por amor, humilhando-se.
Um dia Djalma ficou na espreita esperando a hora que o amante subisse pelo elevador de serviço. Deixou que passasse dez, quinze minutos, para depois subir pelo elevador social.
Os porteiros ficaram entre assustados e felizes. Finalmente aquele corno ia pegar a gorda com seu amante pobre.
Djalma entrou pela sala, silencioso e ágil como uma raposa , e deliciou-se ao ouvir os gritos de prazer que vinham do seu próprio quarto.
Aproximou-se para assistir à cena. Olívia fazia com aquele homem o que sempre se recusara a fazer com ele. Ao invés de estar indignado, raivoso, Djalma estava excitado. Como amava aquela mulher, que prazer e dor aquela cena lhe proporcionava.
Naquele momento tudo o que Djalma queria era o sexo a três. Lembrou-se que um dia chegara a propor à Olívia ir a uma casa de swing, coisa que ela recusou injuriadíssima. Como? Ela? Uma mãe de família? Era mesmo muito contraditória e engraçada essa mulher.
Enquanto Leopoldo urrava sobre Olívia, já quase chegando ao orgasmo, Djalma com os olhos em chamas masturbava-se freneticamente, e sua respiração ofegante se fazia ouvir.
Olívia olhou assustada, e enxergou Djalma enquanto Leopoldo gozou.
Antes que o amante percebesse o que estava acontecendo, a mulher, furiosa, saiu da cama num pulo, com ódio por ter desperdiçado um orgasmo com seu amor, agarrou o marido pelo pescoço com as duas mãos, enquanto ele ao invés de se defender ficou totalmente à mercê de seu bem maior.
Num gesto de amor à Leopoldo e de ódio ao intruso, Olívia com uma força que só a insanidade pode fornecer, arrastou Djalma até a janela e inexplicavelmente levantou-o com as duas mãos, como se ele fosse um boneco de plástico e o atirou do décimo andar.
Djalma não mais seria sugado por ela. Com sua morte, acabou com a vida de Olívia, coisa que sempre quis fazer.
domingo, 2 de janeiro de 2011
TEMA 139 - INSEGURANÇA (maio 2006)
CRISTAL
Mariazinha Cremasco
Para qué me curaste cuando estaba herío
si hoy me dejas de nuevo con el corazón partío.
(Alejandro Sanz - Corazón Partido)
Fazia tempo que não se sentia assim.
Domingo amarelo de sol e não estava feliz.
Triste, ansiosa, preocupada. Saudades de um, preocupação com o outro, insegurança com um terceiro.
Pensava por quais caminhos seguiriam.
Ela há muito desistira de seguir o seu.
Uma força estranha a impedia. Como satisfazer seus caprichos, se já nem sabia mais o que queria?
Andava cansada de tudo. Da máquina fotográfica, do tricô, do computador, da cozinha, da televisão, da coleção de vídeos, dos livros, pequenas coisas que antes lhe davam tanto prazer. Até dos amigos fugia.
Estaria assim só por causa de algumas palavras? Palavras essas, ditas em uma noite, num trajeto infeliz? Ou seria o acúmulo das palavras amargas, ditas insistentemente durante longos anos?
Ela não sabia. Sabia apenas do seu cansaço - desejava mudar, sumir, transformar-se. Que rumo tomaria?
Recomeçar tudo agora ela já não sabia. Para querer de novo, seria preciso ir embora antes que a esperança acabasse.
Ela percebe que pode ser coisa passageirae em breve estará sorrindo. Mas entende também que a dor do momento é grande e parece que jamais vai passar.
Tem medo, quer carinho e proteção. Acostumada a ser tratada como forte, não lhe dão o direito de sentir-se frágil.
Num fragmento de tempo se dá conta, que é ela quem não se dá este direito. É frágil mas tem medo de romper a figura criada.
Inveja a amiga, que faz do dia uma loucura. Que tem garra e força para enfrentar como fera os desafios. Vira-se em dez, faz úteis e não fúteis as vinte e quatro horas do dia.
Inveja? Palavra mais feia. Mas se ela existe, não admitir por quê?
Todos têm inveja, ainda que seja por um momento, de algo, de alguém.
Será que trocar é mudar? Covardia, medo do novo. Esperança de renascimento.
Insegurança com as duras palavras: "você não faz nada".
E ela nada fazia!
TEMA 142 - DOCE MELANCOLIA
O ANTI ALFREDO
Mariazinha Cremasco
Alzira,
Estou me despedindo. Meu amor é tão grande, que não posso ficar mais sofrendo desse jeito.
Fiz de tudo pra você me amar, escrevi nossos nomes nas velas acesas sobre o prato com mel, guardei dentro de uma maçã, fiz despacho com pai de santo, trabalho na encruzilhada, joguei flores pra Iemanjá. Tudo isso pra você me querer, pra você me amar. Até escrevi Alzira num papel dentro do congelador, depois tirava e colocava na água fervendo, na esperança de que se você sofresse, voltaria pra mim.
Mas que nada, Alzira. Você só fez me desprezar. Nunca estava pronta pro meu amor. Quando deitava ao meu lado, ficava com o pensamento em outro lugar. Hoje eu sei onde andava seu pensamento, e quem era o dono do seu coração. Como fui burro, como fui cego. Agora entendo o porquê de todo corno ser manso.
Os melhores presentes que meu salário podia comprar eu lhe dava, todos os dias lavava a louça do jantar, deixava de ver o jogo pra você ver a novela, e nunca reclamei das contas altas de telefone, onde você falava sem parar. Era com ele, agora eu sei.
Eu lhe quis, eu lhe pedi, eu lhe implorei. Alzira, por que? Aceitava tudo, meu amor. Só pedia para não me trair. Que cego eu fui. Todos sabiam que você tinha outro, menos eu.
Quantas vezes, na rua, me sentia sozinho em plena multidão. No reveillon do ano passado, na Avenida Paulista, lembra? Uma multidão brincando e eu infeliz, sofrendo, vendo minha amada cantar e sambar. Você enchia aquele vestido branco, Nunca foi um modelo de beleza, mas para mim, sempre a mais linda. Acho que aquele tal sentia atração pelos seus feromônios. É. Ele nunca lhe amou.
Alzira, meu amor, estes seus feromônios são o inferno da minha vida. Lembra daquela noite, na festinha de aniversário da Vanda? Estava na sala tomando cerveja quente com a turma (eita, gente pra receber mal) e você na cozinha, repondo os tira-gostos. Alzira, eu vi. Eu vi, Alzira, com estes olhos, o marido da Vanda te encoxando na pia. Como vocês puderam? Aquele dia eu já me senti um desgraçado.
Hoje eu sei que você nunca me enxergou como homem, você me tinha para fazer figuração, para pagar suas dívidas, eu era o tapete pra você pisar, era o chão para você cuspir, era o banheiro pra você dar a descarga.
Por que, Alzira? Justo com aquele safado e sem vergonha do Alfredo?
Não podia ser com outro? Que vergonha, Alzira. Que vergonha. Justo com o Alfredão? Pensa que eu não fiquei sabendo que você usava meu dinheiro para comprar presentinhos pra ele? Pensa? Descobri até que as suas amigas mentiam para acobertar você. E sabe o que você é para o Alfredo? Uma aventura, um número a mais na agenda dele. Ele não lhe ama, Alzira. Nunca lhe amou. Ele só queria tirar você de mim. Ele quer todas. Todas que tenham um homem.
Alzira, até Viagra tomei, para satisfazer você. Nunca precisei, mas achei que se ficasse teso por mais tempo, apagaria este seu fogo e você não teria mais ninguém. E você detestou, Alzira. Riu de mim. E contou praquele homem bonito e bem apessoado que eu tinha tomado remédio pra ereção. Justo pra ele, sujeito de fala mansa, a quem muitas mulheres entregaram o coração e muitas outras coisas mais.
Isso eu não posso suportar, Alzira. Eu ouvi ele conversando no bar sobre o tal remédio, e tenho certeza que era de mim que ele falava. Isso não se faz, Alzira. Por isso, minha querida, meu amor, quando você ler essa carta, minha vida estará acabada. Mas não pense que o remorso de carregar minha morte nos ombros vai ser a sua única dor. Você vai chorar muito, minha querida. Você vai sofrer muito ainda. Porque antes de acabar minha vida, acabei com a vida do Alfredo. Saia, corra, vá depressa conferir onde está o seu amante, morto, cheio de formigas, vai.
Coitado, ele não teve culpa, era a natureza dele. Não traiu ninguém. A culpa foi toda sua, vagabunda!
Alfredo e eu não lhe daremos paz.
Um beijo, minha querida. Eu lhe amo, sua puta.
Para sempre seu,
Armando.
Mariazinha Cremasco
Alzira,
Estou me despedindo. Meu amor é tão grande, que não posso ficar mais sofrendo desse jeito.
Fiz de tudo pra você me amar, escrevi nossos nomes nas velas acesas sobre o prato com mel, guardei dentro de uma maçã, fiz despacho com pai de santo, trabalho na encruzilhada, joguei flores pra Iemanjá. Tudo isso pra você me querer, pra você me amar. Até escrevi Alzira num papel dentro do congelador, depois tirava e colocava na água fervendo, na esperança de que se você sofresse, voltaria pra mim.
Mas que nada, Alzira. Você só fez me desprezar. Nunca estava pronta pro meu amor. Quando deitava ao meu lado, ficava com o pensamento em outro lugar. Hoje eu sei onde andava seu pensamento, e quem era o dono do seu coração. Como fui burro, como fui cego. Agora entendo o porquê de todo corno ser manso.
Os melhores presentes que meu salário podia comprar eu lhe dava, todos os dias lavava a louça do jantar, deixava de ver o jogo pra você ver a novela, e nunca reclamei das contas altas de telefone, onde você falava sem parar. Era com ele, agora eu sei.
Eu lhe quis, eu lhe pedi, eu lhe implorei. Alzira, por que? Aceitava tudo, meu amor. Só pedia para não me trair. Que cego eu fui. Todos sabiam que você tinha outro, menos eu.
Quantas vezes, na rua, me sentia sozinho em plena multidão. No reveillon do ano passado, na Avenida Paulista, lembra? Uma multidão brincando e eu infeliz, sofrendo, vendo minha amada cantar e sambar. Você enchia aquele vestido branco, Nunca foi um modelo de beleza, mas para mim, sempre a mais linda. Acho que aquele tal sentia atração pelos seus feromônios. É. Ele nunca lhe amou.
Alzira, meu amor, estes seus feromônios são o inferno da minha vida. Lembra daquela noite, na festinha de aniversário da Vanda? Estava na sala tomando cerveja quente com a turma (eita, gente pra receber mal) e você na cozinha, repondo os tira-gostos. Alzira, eu vi. Eu vi, Alzira, com estes olhos, o marido da Vanda te encoxando na pia. Como vocês puderam? Aquele dia eu já me senti um desgraçado.
Hoje eu sei que você nunca me enxergou como homem, você me tinha para fazer figuração, para pagar suas dívidas, eu era o tapete pra você pisar, era o chão para você cuspir, era o banheiro pra você dar a descarga.
Por que, Alzira? Justo com aquele safado e sem vergonha do Alfredo?
Não podia ser com outro? Que vergonha, Alzira. Que vergonha. Justo com o Alfredão? Pensa que eu não fiquei sabendo que você usava meu dinheiro para comprar presentinhos pra ele? Pensa? Descobri até que as suas amigas mentiam para acobertar você. E sabe o que você é para o Alfredo? Uma aventura, um número a mais na agenda dele. Ele não lhe ama, Alzira. Nunca lhe amou. Ele só queria tirar você de mim. Ele quer todas. Todas que tenham um homem.
Alzira, até Viagra tomei, para satisfazer você. Nunca precisei, mas achei que se ficasse teso por mais tempo, apagaria este seu fogo e você não teria mais ninguém. E você detestou, Alzira. Riu de mim. E contou praquele homem bonito e bem apessoado que eu tinha tomado remédio pra ereção. Justo pra ele, sujeito de fala mansa, a quem muitas mulheres entregaram o coração e muitas outras coisas mais.
Isso eu não posso suportar, Alzira. Eu ouvi ele conversando no bar sobre o tal remédio, e tenho certeza que era de mim que ele falava. Isso não se faz, Alzira. Por isso, minha querida, meu amor, quando você ler essa carta, minha vida estará acabada. Mas não pense que o remorso de carregar minha morte nos ombros vai ser a sua única dor. Você vai chorar muito, minha querida. Você vai sofrer muito ainda. Porque antes de acabar minha vida, acabei com a vida do Alfredo. Saia, corra, vá depressa conferir onde está o seu amante, morto, cheio de formigas, vai.
Coitado, ele não teve culpa, era a natureza dele. Não traiu ninguém. A culpa foi toda sua, vagabunda!
Alfredo e eu não lhe daremos paz.
Um beijo, minha querida. Eu lhe amo, sua puta.
Para sempre seu,
Armando.
TEMA 144 - TRAJE COMPLETO
CAIO, 4! ANOS
Mariazinha Cremasco
Meu filho mais velho estava com três anos e meu caçula tinha três meses. Eu não pensava mais em ter filhos. Não queria mais. Dois era o suficiente para os tempos atuais. Sem contar o fato de que tínhamos perdido nosso primogênito, doenças congênitas. Não queria mais filhos. Fim. Meu médico recusou-se a fazer a ligadura de trompas por eu ser muito jovem na época (bendito médico). Um dia, recém saída de uma cirurgia renal para extrair um cálculo, faltou-me a menstruação. Deve ser da anestesia, pensei.
- Você está com cara de grávida - disse o ginecologista-obstetra.
- Nem me fale uma coisa dessas - respondi.
Eu estava grávida, sim. Os exames confirmaram. Por exatamente (lembro-me como se fosse hoje) uma hora, fiquei transtornada. Passado esse tempo, olhei-me no espelho e perguntei:
- Vai ou não vai ter esse filho?
- Sim - respondi para mim mesma - Vou.
- Então não reclame mais. Faça dessa notícia uma bênção.
E assim foi. Foi minha melhor gravidez, meu melhor parto.
Você nasceu com música, um médico amigo do seu pai, que coincidentemente encontramos na entrada da maternidade assistiu seu nascimento. Foi lindo. Nasceu grande, forte, bonito. O bebê mais fofo do berçário. Cara de joelho? Não... você nunca teve cara de joelho, filho. Seu pai e eu lhe demos o nome do seu irmão. Caio. Nome do qual você gosta muito, o que me faz muito feliz. Você enche a boca para dizer: CAIO.
Não, eu não pretendia colocar nos seus pequeninos ombros o peso do nome do irmão que se foi. Eu também tinha total certeza de que você não era ele. Que seu irmão não tinha voltado. Apenas eu queria repetir esse nome em voz alta: Caio.
E você foi das melhores coisas que nos poderia acontecer. Sempre alegrou a casa. Chorão e inteligente, esperto, amigo de verdade. Não havia quem não gostasse de você, especialmente os pais dos seus amigos. Muitos vinham busca-lo em casa. Adoravam sua companhia. Pra mim, sempre um meninão. Pensei que a primeira vez que usaria um terno seria na sua formatura. Enganei-me. Antes disso, no primeiro emprego, aparece na minha frente de terno e gravata e lap top na mão. Meu menino velho. Meu Nenê-vovô. E não adianta fazer essa cara, você sabe do que estou falando e o carinho que há nessas palavras.
Eu acho tanta graça quando você, de terno e gravata, chega com a mochila amarela nas costas. Dá uma idéia exata da sua personalidade. Íntegro, responsável, e ao mesmo tempo, criança, menino. Não que o hábito faça o monge, mas eu o conheço bem e posso afirmar com certeza o que você é, meu filho. Gosto e me emociono sempre que sua namorada diz ou escreve sobre encontrar a paz nos seus olhos castanhos. Seus lindos olhos castanhos. Que também me trazem paz quando os sinto serenos. Sim, sentir é sempre mais seguro do que ver.
Por tudo isso, pelas alegrias e pelos sorrisos, pelo bem que você trouxe às nossas vidas, chegando num momento em que eu pensava ter desistido de gerar, é que eu digo com meu coração aberto:
Eu te amo, Caio.
FELIZ ANIVERSÁRIO, FILHO!
Mariazinha Cremasco
Meu filho mais velho estava com três anos e meu caçula tinha três meses. Eu não pensava mais em ter filhos. Não queria mais. Dois era o suficiente para os tempos atuais. Sem contar o fato de que tínhamos perdido nosso primogênito, doenças congênitas. Não queria mais filhos. Fim. Meu médico recusou-se a fazer a ligadura de trompas por eu ser muito jovem na época (bendito médico). Um dia, recém saída de uma cirurgia renal para extrair um cálculo, faltou-me a menstruação. Deve ser da anestesia, pensei.
- Você está com cara de grávida - disse o ginecologista-obstetra.
- Nem me fale uma coisa dessas - respondi.
Eu estava grávida, sim. Os exames confirmaram. Por exatamente (lembro-me como se fosse hoje) uma hora, fiquei transtornada. Passado esse tempo, olhei-me no espelho e perguntei:
- Vai ou não vai ter esse filho?
- Sim - respondi para mim mesma - Vou.
- Então não reclame mais. Faça dessa notícia uma bênção.
E assim foi. Foi minha melhor gravidez, meu melhor parto.
Você nasceu com música, um médico amigo do seu pai, que coincidentemente encontramos na entrada da maternidade assistiu seu nascimento. Foi lindo. Nasceu grande, forte, bonito. O bebê mais fofo do berçário. Cara de joelho? Não... você nunca teve cara de joelho, filho. Seu pai e eu lhe demos o nome do seu irmão. Caio. Nome do qual você gosta muito, o que me faz muito feliz. Você enche a boca para dizer: CAIO.
Não, eu não pretendia colocar nos seus pequeninos ombros o peso do nome do irmão que se foi. Eu também tinha total certeza de que você não era ele. Que seu irmão não tinha voltado. Apenas eu queria repetir esse nome em voz alta: Caio.
E você foi das melhores coisas que nos poderia acontecer. Sempre alegrou a casa. Chorão e inteligente, esperto, amigo de verdade. Não havia quem não gostasse de você, especialmente os pais dos seus amigos. Muitos vinham busca-lo em casa. Adoravam sua companhia. Pra mim, sempre um meninão. Pensei que a primeira vez que usaria um terno seria na sua formatura. Enganei-me. Antes disso, no primeiro emprego, aparece na minha frente de terno e gravata e lap top na mão. Meu menino velho. Meu Nenê-vovô. E não adianta fazer essa cara, você sabe do que estou falando e o carinho que há nessas palavras.
Eu acho tanta graça quando você, de terno e gravata, chega com a mochila amarela nas costas. Dá uma idéia exata da sua personalidade. Íntegro, responsável, e ao mesmo tempo, criança, menino. Não que o hábito faça o monge, mas eu o conheço bem e posso afirmar com certeza o que você é, meu filho. Gosto e me emociono sempre que sua namorada diz ou escreve sobre encontrar a paz nos seus olhos castanhos. Seus lindos olhos castanhos. Que também me trazem paz quando os sinto serenos. Sim, sentir é sempre mais seguro do que ver.
Por tudo isso, pelas alegrias e pelos sorrisos, pelo bem que você trouxe às nossas vidas, chegando num momento em que eu pensava ter desistido de gerar, é que eu digo com meu coração aberto:
Eu te amo, Caio.
FELIZ ANIVERSÁRIO, FILHO!
TEMA 157 - MEMÓRIA IMPLACÁVEL
ZEPA
Mariazinha Cremasco
Estava precisando comprar uma roupa nova e fui tentar o que tanta gente faz: ir à Rua José Paulino, carinhosamente chamada Zepa, famosa em São Paulo por seus preços e variedades.
Moda... pffff... Tudo igual, as lojas seguem o mesmo estilo, salvo raríssimas exceções. Tem até desfile na rua. (a moça de coração bom deve ter desfilado lá.)
Estreei o Fura-Fila - agora Expresso Tiradentes. Aquele que liga o nada a coisa alguma. Eu moro no "coisa alguma". O nome original, Fura Fila, foi dado pelo ex prefeito Pita há dez anos. Uma obra superfaturada, caríssima que, para funcionar, precisou ser modificada em seu projeto original. Nada além de um "busão" nos ares, um minhocão só de ônibus.
Andei de metrô, caminhei bastante e vi tudo igual. Sempre qüelo quarantoto, como diria minha avó.
A moda é uma coisa terrível mesmo. Queria um vestido simples, meio clássico, sem muito detalhe. Mas que nada.Todos tinham ou uma faixa na cintura e um laço atrás, ou eram frente única estampado. E as estampas pareciam todas iguais. Verde e branco, preto e branco, azul e branco. Desisti, claro.
Foi então que, com minha super-hiper-mega memória, lembrei de uma loja que frequentei por uns tempos. Na Estação Julio Prestes. Da Zepa*, ou J.P, como é chamada a rua, até ela eu chegaria em 5 minutos de caminhada (me disse um informante) O que seriam 5 minutos pra quem estava há horas andando?
E lá fui eu procurar a loja, da qual sequer sabia o nome. Lembrava apenas que a vendedora era simpática, tinha sotaque nordestino, era morena e se chamava Rita.
-A senhora sabe como ela é? - pergunta um segurança-
-Morena, alta, cabelos escuros e compridos, bem falante e MUITO simpática.
-Assim fica difícil, moça.
Embora eu tenha adorado ser chamada de moça, ele não conhecia a Rita.
Perguntei a TODOS os seguranças e nenhum sabia quem era a tal moça com sotaque nordestino.
E lá vou eu, teimosa como uma porta, caminhando dentro do mini shopping que nem é tão mini assim, para tentar encontrar a loja da Rita. Subi, desci, subi novamente.
-A senhora sabe ao menos se era no térreo ou no primeiro andar?
-Primeiro andar! Tenho certeza! Eu subia as escadas e entrava à direita.
Depois de muito procurar, cheguei à conclusão de que a loja deveria ter fechado. Afinal de contas, embora certa de que era no primeiro andar, eu andei tudo de cabo a rabo e várias vezes, nos dois andares.
-Tem certeza de que é preciso subir a escada?
-Claro! Eu conheço bem a loja e conheço bem a Rita. (será que ele estava me achando com cara de doida?).
Mesmo sabendo que sou meio sem noção (os lugares, não sei porquê, me parecem sempre tão parecidos...) continuei tentando.
Sou teimosa e não me conformava em ir embora sem achar a Rita. Então, passei pela enésima vez diante de uma loja, pasmem, no térreo. Nessa enésima vez, resolvo olhar para dentro (tendo a certeza de que não era lá).
E quem eu vejo? A Rita!
Rita é quase igual ao que eu me lembrava. Alta, falante, simpática e louríssima. Loura de cabelos descoloridos!
-Apois, Maria! Lembrou-se de mim, foi?
-Rita! Que bom ter encontrado você! Mudou para o térreo? Você ficou loura?
-Absolutamente! A loja sempre foi aqui e eu nunca fui morena. Eu uso esse cabelo há décadas.
Eu e minha falta de noção de espaço.
Enquanto isso minha companheira de andança ria até não mais poder. A loja é a melhor do lugar e as roupas também. Finalmente encontrei o que desejava. Um vestido simples, com bela caída, que usarei em uma data pra lá de especial.
Meus pés doíam tanto, que precisei trocar de calçado com a minha amiga querida, companheira dessa jornada.
Na volta, quis "destrocar" os calçados, claro. Estávamos dentro do ônibus, mas eu não quis saber. Trocamos ali mesmo, em pleno movimento do ônibus cheio e nós duas de pé, praticamente penduradas. É terrível andar de ônibus em São Paulo. Não há o menor respeito pelo ser humano. Correm, abusam nas curvas e ficamos à mercê deles.
O importante é que, na minha sacola, estava o tão procurado vestidinho verde...
Mariazinha Cremasco
Estava precisando comprar uma roupa nova e fui tentar o que tanta gente faz: ir à Rua José Paulino, carinhosamente chamada Zepa, famosa em São Paulo por seus preços e variedades.
Moda... pffff... Tudo igual, as lojas seguem o mesmo estilo, salvo raríssimas exceções. Tem até desfile na rua. (a moça de coração bom deve ter desfilado lá.)
Estreei o Fura-Fila - agora Expresso Tiradentes. Aquele que liga o nada a coisa alguma. Eu moro no "coisa alguma". O nome original, Fura Fila, foi dado pelo ex prefeito Pita há dez anos. Uma obra superfaturada, caríssima que, para funcionar, precisou ser modificada em seu projeto original. Nada além de um "busão" nos ares, um minhocão só de ônibus.
Andei de metrô, caminhei bastante e vi tudo igual. Sempre qüelo quarantoto, como diria minha avó.
A moda é uma coisa terrível mesmo. Queria um vestido simples, meio clássico, sem muito detalhe. Mas que nada.Todos tinham ou uma faixa na cintura e um laço atrás, ou eram frente única estampado. E as estampas pareciam todas iguais. Verde e branco, preto e branco, azul e branco. Desisti, claro.
Foi então que, com minha super-hiper-mega memória, lembrei de uma loja que frequentei por uns tempos. Na Estação Julio Prestes. Da Zepa*, ou J.P, como é chamada a rua, até ela eu chegaria em 5 minutos de caminhada (me disse um informante) O que seriam 5 minutos pra quem estava há horas andando?
E lá fui eu procurar a loja, da qual sequer sabia o nome. Lembrava apenas que a vendedora era simpática, tinha sotaque nordestino, era morena e se chamava Rita.
-A senhora sabe como ela é? - pergunta um segurança-
-Morena, alta, cabelos escuros e compridos, bem falante e MUITO simpática.
-Assim fica difícil, moça.
Embora eu tenha adorado ser chamada de moça, ele não conhecia a Rita.
Perguntei a TODOS os seguranças e nenhum sabia quem era a tal moça com sotaque nordestino.
E lá vou eu, teimosa como uma porta, caminhando dentro do mini shopping que nem é tão mini assim, para tentar encontrar a loja da Rita. Subi, desci, subi novamente.
-A senhora sabe ao menos se era no térreo ou no primeiro andar?
-Primeiro andar! Tenho certeza! Eu subia as escadas e entrava à direita.
Depois de muito procurar, cheguei à conclusão de que a loja deveria ter fechado. Afinal de contas, embora certa de que era no primeiro andar, eu andei tudo de cabo a rabo e várias vezes, nos dois andares.
-Tem certeza de que é preciso subir a escada?
-Claro! Eu conheço bem a loja e conheço bem a Rita. (será que ele estava me achando com cara de doida?).
Mesmo sabendo que sou meio sem noção (os lugares, não sei porquê, me parecem sempre tão parecidos...) continuei tentando.
Sou teimosa e não me conformava em ir embora sem achar a Rita. Então, passei pela enésima vez diante de uma loja, pasmem, no térreo. Nessa enésima vez, resolvo olhar para dentro (tendo a certeza de que não era lá).
E quem eu vejo? A Rita!
Rita é quase igual ao que eu me lembrava. Alta, falante, simpática e louríssima. Loura de cabelos descoloridos!
-Apois, Maria! Lembrou-se de mim, foi?
-Rita! Que bom ter encontrado você! Mudou para o térreo? Você ficou loura?
-Absolutamente! A loja sempre foi aqui e eu nunca fui morena. Eu uso esse cabelo há décadas.
Eu e minha falta de noção de espaço.
Enquanto isso minha companheira de andança ria até não mais poder. A loja é a melhor do lugar e as roupas também. Finalmente encontrei o que desejava. Um vestido simples, com bela caída, que usarei em uma data pra lá de especial.
Meus pés doíam tanto, que precisei trocar de calçado com a minha amiga querida, companheira dessa jornada.
Na volta, quis "destrocar" os calçados, claro. Estávamos dentro do ônibus, mas eu não quis saber. Trocamos ali mesmo, em pleno movimento do ônibus cheio e nós duas de pé, praticamente penduradas. É terrível andar de ônibus em São Paulo. Não há o menor respeito pelo ser humano. Correm, abusam nas curvas e ficamos à mercê deles.
O importante é que, na minha sacola, estava o tão procurado vestidinho verde...
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