FINA ESTAMPA
Mariazinha Cremasco
O dia amanheceu nublado, do jeitinho que ela gostava. Não que desprezasse os dias de sol, mas preferia os chuvosos e encobertos para amar.
"O que a gente faz, é por debaixo dos panos, pra ninguém saber. Se eu ganho mais, é por debaixo dos panos, ou se vou perder"
Já esperava por isso, pois na noite anterior, quando foi observar a lua e as estrelas (adquirira essa mania recentemente), percebeu que a lua não piscara para ela, e as estrelas também se guardaram. Ficou uns momentos ali, no frescor do quintal, na noite sem luar, na brisa suave.
"Na bruma leve das paixões que vem de dentro
Tu vens chegando prá brincar no meu quintal (...)
Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais."
Acordou de bem com a vida. Não, não poderia ser errado o que estava sentindo, e o que estava fazendo.
Encontaram-se e o beijo gostoso, molhado, no desejo do dia que teriam juntos.
"Primeiro era vertigem, como em qualquer paixão
Era só fechar os olhos e deixar o corpo ir no ritmo
Depois era um vício, uma intoxicação,
percorrendo as veias, arrastando pelo chão.(...)
já dei meia volta ao mundo, levitando de tesão"
Ficaram ali, observando as coisas que os rodeavam. Apegando-se ao que poderiam ter, dentro dos limites do que lhes era possível. Tinham um ao outro e isso quase bastava. Nas coisas mais impessoais, conseguiam colocar sentimento.
Ele, sensível, gentil, olhava, dava forma, cor e brilho aos pequenos detalhes. Descobriu plantas, cachoeiras e sons no lugar. (a cachoeira era artificial, mas quem se importava?) Fechavam os olhos e podiam sentir o frescor de uma trilha no bosque. Apertaram um botão, o teto se abriu e puderam ver as lindas árvores. E sentiram o cheiro da terra. A música soava. Sentiam-se em casa, no lar. No seu lar particular, inatingível e indecifrável "lar". Quem mais compreenderia, senão eles mesmos?
"Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo um sorriso sincero, um abraço
Para aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade (...)
Pra mim, tu és a estrela mais linda
seus olhos me prendem
Fascinam, a paz que eu gosto de ter"
Ela o admirava, ele a elogiava. Ela via nele o homem inteligente, cheio de brilho e poder, ele via nela a menina/mulher, cheia de ternura, que sempre esperara. Seria isso tudo apenas uma ilusão?
"Garotos não resistem a seus mistérios, garotos nunca dizem não.
Garotos como eu sempre tão espertos, perto de uma mulher, são só garotos."
Ali permaneceram por cinco horas, que pareceram durar apenas cinco minutos, tão felizes estavam. Nadaram, banharam-se na cachoeira, dançaram ao som da música imaginária, comeram a comidinha leve e saborosa que ambos queriam comer, falaram de temperos, (Ah, as pimentas vermelhas, que colocadas uma contra a outra, formam uma boca, símbolo do seu refúgio). La belle de jour, de flores, de risos, de dores. Contaram histórias um ao outro, cuidaram-se. Presentearam-se com a vida. Falaram dos seus trabalhos, cada um do seu jeito, de educação, política, religião. Livros, poesias, sexo, fantasias.
"Amor é um livro
Sexo é esporte
Sexo é escolha
Amor é sorte"
Foram embora agarradinhos, sem perder um segundo sequer de carinho. Uma pequena lágrima na despedida, mas não de tristeza. Sabiam que tinham tempo e que precisavam aprender a esperar. Precisavam exercitar a difícil arte da espera. E esperariam. Enquanto isso, no carro, de volta, a música que ele escolhera para ela.
"que una paloma triste muy de mañana le iba a cantar a la casita solacon sus puertitas de par en parjuran que esa palomano es otra cosa más que su alma"
Cada um no seu carro. Cada um no seu canto, esperando o próximo e breve encontro, baseando-se nas músicas como forma de comunicação, aguardam mais um dia de amor, e enquanto pensam, cantam:
"Esto no puede ser no más que una canción
Quisiera fuera una declaración de amor
Romántica sin reparar en formas tales
Que pongan freno a lo que siento ahora a raudales
Te amo, te amo , eternamente te amo"
Soy loco por ti, de amores
Todos os textos que escrevi durante os 10 anos (mais ou menos) que duraram os Anjos de Prata, e outras coisinhas mais. Sou grata a todos os anjos e ao inesquecível Mario Prata. Continuamos firmes na amizade, embora o site tenha acabado, e temos 9 livros juntos. Bom demais.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
VAMOS COMBINAR
Mariazinha Cremasco
"A morte não é a maior perda da vida.
A maior perda da vida é o que morre dentro de nós enquanto vivemos.
"(Norman Cuisins)
Muitas vezes fico nervosa com meu filho mais novo, dizendo que ele é estressado, nervoso, e que sofre por antecipação. Até parece que sou muito diferente dele. Sei que falar é facil, mas na prática, a teoria é mesmo outra. Penso e já idealizo a situação.
Então me flagro dando conselhos, dizendo frases feitas do tipo: "deixa a vida me levar, vida leva eu". E sorrio, pois sei que não é assim tão simples. É uma questão de personalidade, gênio, ou até mesmo - quem sabe - genética.
Fiz um longo discurso dia desses. Contei uma historinha, que é absolutamente verdadeira. Na realidade, acho que estava falando para mim mesma, pois talvez eu precise mais do que ele, ter a certeza de que este nosso comportamento ansioso e desesperado com pequenas coisas, não nos leva a nada.
Eis o meu discurso:
"-Sabe, filho, um dia eu fui pra Europa, fiquei vinte e oito dias longe de vocês três. Era julho, e passei o seu aniversário de oito anos lá. Em Londres. Liguei pra você de uma cabine vermelha, característica da cidade. Lembra do meu telefonema?
Foi minha primeira viagem internacional. Antes de embarcar, quase me matei de trabalhar. Quis deixar tudo lindo e pronto para meus pais, que ficaram na nossa casa os vinte e oito dias, tomando conta de vocês. Para dar a eles o máximo de conforto. Até comida pronta e congelada deixei. Por tanto estresse, fiquei doente no dia de embarcar.
Mas fui. Fui e amei conhecer lugares que eu jamais sonhara ver um dia. Encantei-me. Espanha, Itália, França, Inglaterra, Alemanhã, Suíça, Portugal.
E aí? Passei boa parte desses vinte e oito dias pensando em como encontraria vocês. Será que estariam bem? Será que algo aconteceria de ruim? No fundo, segundo psicólogos, eu não me achava "merecedora" de tanta felicidade, de tanta coisa boa. Conhecer sete países da Europa? Eu? Uma menina pobre, criada por pais simples? Na Europa? Aquilo para mim era um sonho, eu me sentia dentro dos livros de história.
Final da viagem. Dia da volta. Desespero total. Eu tinha o pressentimento de que algo muito ruim aconteceria. Primeiro, achei que o avião cairia. Não caiu. Peguei um taxi no aeroporto de Cumbica, o motorista corria tanto, pensei que íamos bater feio, e que morreríamos no trajeto. O carro não bateu. Nada aconteceu. Quando entrei na nossa rua, estava inteira, minhas malas intactas, os presentes todos lá. (sua mochila de relógio, da Suíça, lembra?, a bolinha da copa do Mundo de noventa e tantas outras coisinhas)
Como nada mais de terrível poderia me acontecer, pensei em ver a casa toda em cinzas, depois de um incêndio apagado. Nada. A casa estava inteirinha. Aí esperei o vô e a vó me receberem com cara triste, desenxabidos, sem saber como falar que um de vocês estava morto, ou que um de vocês estava no hospital, ou que... tragédias. Muitas tragédias me vinham à mente.
Meus pais abriram a porta, com um largo sorriso no rosto, e uma comidinha boa no fogão. Percebi que nada de ruim tinha acontecido. Meus pais estavam bem. Meus filhos estavam bem, ainda no colégio, tudo nos conformes.
Foi quando percebi que, sem mim, a vida também andava. Percebi que não era Deus. Que não era onipotente. Que não sabia tudo. E o pior... que a vida poderia continuar sem mim.
Entendeu, filho?
Não sou um bom exemplo pra você, pois vivo preocupada demais. Libertei-me, porém não de todo. Mas você é bem mais jovem do que eu na época ( tinha 36 anos) e pode, mais depressa, exercitar-se para não sofrer tanto.
Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena, disse o poeta. Sua alma é grande, filho. Basta que você perceba a admiração das pessoas à sua volta. Seja responsável, mas sem exageros.
E assim vamos levando a vida. Ou a vida nos leva? Não importa. Vamos viver o presente, esquecer as coisas ruins do passado, vamos guardar as boas recordações e fazer muito amor.
Que nessa vida, a gente tem obrigação apenas de ser feliz."
Mariazinha Cremasco
"A morte não é a maior perda da vida.
A maior perda da vida é o que morre dentro de nós enquanto vivemos.
"(Norman Cuisins)
Muitas vezes fico nervosa com meu filho mais novo, dizendo que ele é estressado, nervoso, e que sofre por antecipação. Até parece que sou muito diferente dele. Sei que falar é facil, mas na prática, a teoria é mesmo outra. Penso e já idealizo a situação.
Então me flagro dando conselhos, dizendo frases feitas do tipo: "deixa a vida me levar, vida leva eu". E sorrio, pois sei que não é assim tão simples. É uma questão de personalidade, gênio, ou até mesmo - quem sabe - genética.
Fiz um longo discurso dia desses. Contei uma historinha, que é absolutamente verdadeira. Na realidade, acho que estava falando para mim mesma, pois talvez eu precise mais do que ele, ter a certeza de que este nosso comportamento ansioso e desesperado com pequenas coisas, não nos leva a nada.
Eis o meu discurso:
"-Sabe, filho, um dia eu fui pra Europa, fiquei vinte e oito dias longe de vocês três. Era julho, e passei o seu aniversário de oito anos lá. Em Londres. Liguei pra você de uma cabine vermelha, característica da cidade. Lembra do meu telefonema?
Foi minha primeira viagem internacional. Antes de embarcar, quase me matei de trabalhar. Quis deixar tudo lindo e pronto para meus pais, que ficaram na nossa casa os vinte e oito dias, tomando conta de vocês. Para dar a eles o máximo de conforto. Até comida pronta e congelada deixei. Por tanto estresse, fiquei doente no dia de embarcar.
Mas fui. Fui e amei conhecer lugares que eu jamais sonhara ver um dia. Encantei-me. Espanha, Itália, França, Inglaterra, Alemanhã, Suíça, Portugal.
E aí? Passei boa parte desses vinte e oito dias pensando em como encontraria vocês. Será que estariam bem? Será que algo aconteceria de ruim? No fundo, segundo psicólogos, eu não me achava "merecedora" de tanta felicidade, de tanta coisa boa. Conhecer sete países da Europa? Eu? Uma menina pobre, criada por pais simples? Na Europa? Aquilo para mim era um sonho, eu me sentia dentro dos livros de história.
Final da viagem. Dia da volta. Desespero total. Eu tinha o pressentimento de que algo muito ruim aconteceria. Primeiro, achei que o avião cairia. Não caiu. Peguei um taxi no aeroporto de Cumbica, o motorista corria tanto, pensei que íamos bater feio, e que morreríamos no trajeto. O carro não bateu. Nada aconteceu. Quando entrei na nossa rua, estava inteira, minhas malas intactas, os presentes todos lá. (sua mochila de relógio, da Suíça, lembra?, a bolinha da copa do Mundo de noventa e tantas outras coisinhas)
Como nada mais de terrível poderia me acontecer, pensei em ver a casa toda em cinzas, depois de um incêndio apagado. Nada. A casa estava inteirinha. Aí esperei o vô e a vó me receberem com cara triste, desenxabidos, sem saber como falar que um de vocês estava morto, ou que um de vocês estava no hospital, ou que... tragédias. Muitas tragédias me vinham à mente.
Meus pais abriram a porta, com um largo sorriso no rosto, e uma comidinha boa no fogão. Percebi que nada de ruim tinha acontecido. Meus pais estavam bem. Meus filhos estavam bem, ainda no colégio, tudo nos conformes.
Foi quando percebi que, sem mim, a vida também andava. Percebi que não era Deus. Que não era onipotente. Que não sabia tudo. E o pior... que a vida poderia continuar sem mim.
Entendeu, filho?
Não sou um bom exemplo pra você, pois vivo preocupada demais. Libertei-me, porém não de todo. Mas você é bem mais jovem do que eu na época ( tinha 36 anos) e pode, mais depressa, exercitar-se para não sofrer tanto.
Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena, disse o poeta. Sua alma é grande, filho. Basta que você perceba a admiração das pessoas à sua volta. Seja responsável, mas sem exageros.
E assim vamos levando a vida. Ou a vida nos leva? Não importa. Vamos viver o presente, esquecer as coisas ruins do passado, vamos guardar as boas recordações e fazer muito amor.
Que nessa vida, a gente tem obrigação apenas de ser feliz."
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
TEMA 112 - MULHER
DE PROFUNDIS
Mariazinha Cremasco
Comigo me desavim,
Fui posto em grande perigo:
Não posso viver comigo,
Não posso fugir de mim.
Sá de Miranda
Eu procurava fotos dos meus filhos, de quando eram bebês.
Precisava escolher duas bem fofas. Tarefa difícil. Eles eram tão lindos... as fotos seriam mostradas na colação de grau do meu filho do meio e do caçula. Ambos se formaram no ano passado. E ambas as cerimônias aconteceriam nesse mês de março.
Pediam as fotos para colocar no telão. Há quem considere brega. Eu acho lindo. Mostram uma foto de quando eram bebês e outra recente, enquanto o formando participa da solenidade. Mães são tão bobas...
Fiquei perdida ali, parada no tempo.
Quanta saudade senti.
Fui mexendo, virando, olhando, sentindo. Lembrando de cada momento, de cada progresso dos meus três filhos. Uma enorme ternura me inundou. Naquele momento, eu era a mais feliz das mulheres. (eu, que vivo criticando as mães, que sempre falo do seu amor exagerado, de suas emoções fora de controle e limites)
De repente, encontro uma caixinha. Uma caixinha bem guardadinha, que nunca mais vi, desde que meu primeiro filho morreu. Quer dizer... nesses anos todos, vi apenas uma vez. Meu marido guarda muito bem. Não olha e não quer que eu olhe. Como se entre nós existisse um pacto, que nunca existiu, mas que é cumprido. Não olhamos, e até bem pouco tempo sequer falávamos sobre esse assunto tão doloroso.
Pois bem: Encontrei a caixinha de fotos do meu primeiro filho, o que se foi. Não pensei duas vezes em romper o pacto imaginário.
Não sei dizer o que senti. Ali, guardadas, as fotos, a lembrancinha do nascimento, a lembrancinha do batizado.
Realmente não sei o que senti.
Foi uma confusão de coisas - dor, perda, muito amor, impotência, gratidão até. O que ele seria hoje, meu Deus?
Não sei, mas sei que devo reverenciar tudo o que tenho hoje, principalmente a saúde, inteligência e integridade dos meus três filhos, que ficaram comigo.
Deveria haver uma lei, para que NUNCA, em hipótese alguma, os filhos se fossem antes dos pais.
Não, não estou triste.
Estou apenas pensando, refletindo. Tenho um nó na garganta, mas não é tristeza. É um pensar constante nessas três pessoas que me impulsionam a viver: Bruno, Felipe e Caio.
Há coisas que jamais compreenderemos.
A morte, a maternidade e a mulher.
Mariazinha Cremasco
Comigo me desavim,
Fui posto em grande perigo:
Não posso viver comigo,
Não posso fugir de mim.
Sá de Miranda
Eu procurava fotos dos meus filhos, de quando eram bebês.
Precisava escolher duas bem fofas. Tarefa difícil. Eles eram tão lindos... as fotos seriam mostradas na colação de grau do meu filho do meio e do caçula. Ambos se formaram no ano passado. E ambas as cerimônias aconteceriam nesse mês de março.
Pediam as fotos para colocar no telão. Há quem considere brega. Eu acho lindo. Mostram uma foto de quando eram bebês e outra recente, enquanto o formando participa da solenidade. Mães são tão bobas...
Fiquei perdida ali, parada no tempo.
Quanta saudade senti.
Fui mexendo, virando, olhando, sentindo. Lembrando de cada momento, de cada progresso dos meus três filhos. Uma enorme ternura me inundou. Naquele momento, eu era a mais feliz das mulheres. (eu, que vivo criticando as mães, que sempre falo do seu amor exagerado, de suas emoções fora de controle e limites)
De repente, encontro uma caixinha. Uma caixinha bem guardadinha, que nunca mais vi, desde que meu primeiro filho morreu. Quer dizer... nesses anos todos, vi apenas uma vez. Meu marido guarda muito bem. Não olha e não quer que eu olhe. Como se entre nós existisse um pacto, que nunca existiu, mas que é cumprido. Não olhamos, e até bem pouco tempo sequer falávamos sobre esse assunto tão doloroso.
Pois bem: Encontrei a caixinha de fotos do meu primeiro filho, o que se foi. Não pensei duas vezes em romper o pacto imaginário.
Não sei dizer o que senti. Ali, guardadas, as fotos, a lembrancinha do nascimento, a lembrancinha do batizado.
Realmente não sei o que senti.
Foi uma confusão de coisas - dor, perda, muito amor, impotência, gratidão até. O que ele seria hoje, meu Deus?
Não sei, mas sei que devo reverenciar tudo o que tenho hoje, principalmente a saúde, inteligência e integridade dos meus três filhos, que ficaram comigo.
Deveria haver uma lei, para que NUNCA, em hipótese alguma, os filhos se fossem antes dos pais.
Não, não estou triste.
Estou apenas pensando, refletindo. Tenho um nó na garganta, mas não é tristeza. É um pensar constante nessas três pessoas que me impulsionam a viver: Bruno, Felipe e Caio.
Há coisas que jamais compreenderemos.
A morte, a maternidade e a mulher.
TEMA 117 - VERDE
VERDE E AZUL
Mariazinha Cremasco
Segue o teu destino,Rega as tuas plantas,Ama as tuas rosas.O resto é a sombraDe arvores alheias.
(Ricardo Reis)
Colação de grau na Unicamp. Biologia.
Colação de grau da FEI. Engenharia.
Meu biólogo Felipe. Meu engenheiro Caio.
Podem dizer que é brega, mas amei ver a foto deles no telão, quando bebezinhos. Se chorar de emoção é ser brega, ter orgulho, sou brega, então.
Ver os três filhos juntos, abraçados, um de beca, chapéu e faixa verde. Sorriso maroto.
Ver esse homem-menino olhar para mim, lá de cima, na hora em que falavam dos pais, não dá pra descrever.
Não tem coisa melhor. Naquele momento, fui a mais feliz das criaturas.
Emoção igual foi ver depois, em menos de quinze dias, o outro filho, de beca chapéu e faixa azul, sorrindo para mim, eleito jurador da turma e lendo o juramento do engenheiro.
Realização foi ver o mais velho, Bruno, economista, ao lado dos dois nesse momento tão especial de suas vidas.
Momento especial, alegre e ao mesmo tempo difícil. A transição. De estudantes aos bons profissionais, que certamente serão. Saber o quanto é difícil trabalhar decentemente no país em que vivemos. O quanto é difícil, principalmente, trabalhar na área da profissão que escolhemos. (Às vezes temos que nos contentar em fazer coisas diferentes das que aprendemos, daquelas em que somos mais capazes.)
Tudo isso, marcado por músicas que jamais esquecerei. Estranho como a vida é música. Principalmente quando estamos felizes.
Lílian, sabiamente, dizendo baixinho para mim:
- Esse lugar está cheio de boas energias. Aproveitemos.
Era verdade. Todas as pessoas daquele lugar, naquela hora, estavam muito alegres e podia se sentir a energia boa no ar.
O irmão mais velho fotografando tudo, de todos os ângulos, não querendo perder nada.
Rita, quietinha, observando. Nas duas colações. Fazendo força para não chorar.
O pai, tentando ser durão, sorriso de orelha a orelha. Emoção.
Dizem que as colações são todas iguais. Para mim, não. Para cada mãe ali presente, era única e diferente de todas.
Haja coração. Haja energia.
Oi, tum, tum... bate coração.
Oi, tum... coração pode bater.
Verde e azul.
E vermelho também, do amor e da emoção.
Mariazinha Cremasco
Segue o teu destino,Rega as tuas plantas,Ama as tuas rosas.O resto é a sombraDe arvores alheias.
(Ricardo Reis)
Colação de grau na Unicamp. Biologia.
Colação de grau da FEI. Engenharia.
Meu biólogo Felipe. Meu engenheiro Caio.
Podem dizer que é brega, mas amei ver a foto deles no telão, quando bebezinhos. Se chorar de emoção é ser brega, ter orgulho, sou brega, então.
Ver os três filhos juntos, abraçados, um de beca, chapéu e faixa verde. Sorriso maroto.
Ver esse homem-menino olhar para mim, lá de cima, na hora em que falavam dos pais, não dá pra descrever.
Não tem coisa melhor. Naquele momento, fui a mais feliz das criaturas.
Emoção igual foi ver depois, em menos de quinze dias, o outro filho, de beca chapéu e faixa azul, sorrindo para mim, eleito jurador da turma e lendo o juramento do engenheiro.
Realização foi ver o mais velho, Bruno, economista, ao lado dos dois nesse momento tão especial de suas vidas.
Momento especial, alegre e ao mesmo tempo difícil. A transição. De estudantes aos bons profissionais, que certamente serão. Saber o quanto é difícil trabalhar decentemente no país em que vivemos. O quanto é difícil, principalmente, trabalhar na área da profissão que escolhemos. (Às vezes temos que nos contentar em fazer coisas diferentes das que aprendemos, daquelas em que somos mais capazes.)
Tudo isso, marcado por músicas que jamais esquecerei. Estranho como a vida é música. Principalmente quando estamos felizes.
Lílian, sabiamente, dizendo baixinho para mim:
- Esse lugar está cheio de boas energias. Aproveitemos.
Era verdade. Todas as pessoas daquele lugar, naquela hora, estavam muito alegres e podia se sentir a energia boa no ar.
O irmão mais velho fotografando tudo, de todos os ângulos, não querendo perder nada.
Rita, quietinha, observando. Nas duas colações. Fazendo força para não chorar.
O pai, tentando ser durão, sorriso de orelha a orelha. Emoção.
Dizem que as colações são todas iguais. Para mim, não. Para cada mãe ali presente, era única e diferente de todas.
Haja coração. Haja energia.
Oi, tum, tum... bate coração.
Oi, tum... coração pode bater.
Verde e azul.
E vermelho também, do amor e da emoção.
Tema 123 - PASSAPORTE
DIÁLOGO URBANO
Mariazinha Cremasco
- Hospital São Clemente, Cláudia, bom dia!
- Bom dia, Cláudia. Por favor, preciso marcar uma consulta...
- Momentinho...
(musiquinha)
- Consultas, Fátima, bom dia!
- Bom dia, Fátima. Por favor, quero marcar uma consulta com o Dr. Fausto.
- Outro número, senhora. Ligue para o direto, 4224-qualquer coisa.
- Obrigada.
Tu-tu-tu-tu... Depois de quinze minutos tentando o outro número, o tal direto:
- Consultas, Fátima, bom dia!
- ?????Fátima????? Falei com você há pouco, gostaria de marcar uma consulta com Dr. Fausto.
Entra a musiquinha... Sequer disse o indefectível "momentinho".
Minutos depois:
- Ah... só para o dia 26 de julho, pode ser?
- Não, é urgente. Precis...
- Lamento, Dr. Fausto não admite encaixes.
- Está bem então... dia 26 de julho.
- Nome do paciente?
- Mario Cremasco.
- Ah... o Sr. Mário? É urgente?
- Sim, é urgente.
- Então venha na próxima terça no último horário, que vou tentar falar com o doutor. Mas não garanto nada... Se ele não estiver de bom humor...
Depois dessa, nem reclamei. Como ia dizer que precisei ligar para dois números diferentes, que ficavam na mesma mesa, e que ela mesma, Fátima, era responsável pelos dois? Um só para marcar consulta? Reclamar depois da moça reconhecer meu pai só pelo nome, como reclamar?
De qualquer maneira, fica aqui meu protesto.
Então é assim? Que raio de convênio médico é esse, que faz uma pessoa esperar quase um mês para ser atendida, pelo próprio médico que pediu urgência? E o descaso no atendimento? E o fato da moça (que eu nem sabia) conhecer meu pai, e "quebrar o galho"? E os outros idosos que necessitam de urgência? Todos os galhos serão quebrados? Vou morrer sem entender. Entender, não. Conformar.
Não vou me conformar nunca com essa situação. Quebrar galho? Saúde não é pra "quebrar galho", meu amigo. Saúde é coisa séria, e esse país parece que esqueceu.
Mariazinha Cremasco
- Hospital São Clemente, Cláudia, bom dia!
- Bom dia, Cláudia. Por favor, preciso marcar uma consulta...
- Momentinho...
(musiquinha)
- Consultas, Fátima, bom dia!
- Bom dia, Fátima. Por favor, quero marcar uma consulta com o Dr. Fausto.
- Outro número, senhora. Ligue para o direto, 4224-qualquer coisa.
- Obrigada.
Tu-tu-tu-tu... Depois de quinze minutos tentando o outro número, o tal direto:
- Consultas, Fátima, bom dia!
- ?????Fátima????? Falei com você há pouco, gostaria de marcar uma consulta com Dr. Fausto.
Entra a musiquinha... Sequer disse o indefectível "momentinho".
Minutos depois:
- Ah... só para o dia 26 de julho, pode ser?
- Não, é urgente. Precis...
- Lamento, Dr. Fausto não admite encaixes.
- Está bem então... dia 26 de julho.
- Nome do paciente?
- Mario Cremasco.
- Ah... o Sr. Mário? É urgente?
- Sim, é urgente.
- Então venha na próxima terça no último horário, que vou tentar falar com o doutor. Mas não garanto nada... Se ele não estiver de bom humor...
Depois dessa, nem reclamei. Como ia dizer que precisei ligar para dois números diferentes, que ficavam na mesma mesa, e que ela mesma, Fátima, era responsável pelos dois? Um só para marcar consulta? Reclamar depois da moça reconhecer meu pai só pelo nome, como reclamar?
De qualquer maneira, fica aqui meu protesto.
Então é assim? Que raio de convênio médico é esse, que faz uma pessoa esperar quase um mês para ser atendida, pelo próprio médico que pediu urgência? E o descaso no atendimento? E o fato da moça (que eu nem sabia) conhecer meu pai, e "quebrar o galho"? E os outros idosos que necessitam de urgência? Todos os galhos serão quebrados? Vou morrer sem entender. Entender, não. Conformar.
Não vou me conformar nunca com essa situação. Quebrar galho? Saúde não é pra "quebrar galho", meu amigo. Saúde é coisa séria, e esse país parece que esqueceu.
TEMA 133 - PIEDADE
MISERERE NOBIS
Mariazinha Cremasco
...e se piedade vos sobrar, senhor, tende piedade de mim.
(Elegia Desesperada, Vinicius de Moraes)
Começo de ano, tantos planos, tantas coisas a mudar.
Tantas coisas a fazer, e parado - como na canção - esperando a morte chegar.
Por que?
Tanta coisa precisando da sua atuação, e no entanto sente-se o menos importante do mundo, o que talvez menos possa fazer ao próximo mais próximo.
Promete preces. Não faz
Promete solidariedade. Não dá.
Promete amizade. Fica no seu canto.
Oferece seus serviços - o que precisar, estou às ordens - E se esconde.
Era para ele, que o poeta cantava:
...vamos pedir piedade, pra essa gente careta e covarde...
O ano se vai lerdo, e todos dizendo o quanto passou depressa.
Frases feitas e banais.
Vai chover, está calor, já estamos no fim de janeiro?
Passa depressa pela falta de esperança, de objetivo, de fé.
Morre lentamente pela desarmonia, insegurança, medo do novo. Desamor
Não!
Fica indignado com o próprio pensamento: amor tem muito.
Falta-lhe vida.
Mas é tão alegre...
Casca. Apenas casca.
...vamos pedir piedade, pra essa gente careta e covarde...
Lutou, brigou, morreu na praia. Foi derrotado.
Das poucas coisas de que tem certeza, é impedido de agir, por seu maior inimigo: ele próprio.
Letárgico.
Visto como uma grande alma, no fundo sabe que tem a alma pequenina e feia.
...vamos pedir piedade, pra essa gente careta e covarde...
Fraco, esconde-se nos que considera fortes.
Covarde.
Finge que lê, entende, viu, está acompanhando.
Mas vive trancado no seu mundinho de infelicidades e incertezas, culpando todos.
Todos pensam que tem bom humor, quando não passa de pessoa amarga, azeda, de mal com a vida.
...vamos pedir piedade, pra essa gente careta e covarde...
Bom, dizem que admitir já é um passo.
E agora, que leu dentro de si mesmo, quem sabe ainda seja possível mudar?
As vezes pensa que não. Não pode.
Outras vezes pensa - as pessoas que estão aí, fazendo e acontecendo, são exatamente iguais.
Descrentes, porém com discurso na ponta da língua.
Fachada.
Será que são todos iguais?
Ou é possível confiar em alguém?
...vamos pedir piedade, pra essa gente careta e covarde...
Ainda existe gente sensível e verdadeira nesse mundo de Deus?
E Deus?
...vamos pedir piedade, pra essa gente careta e covarde...
Mariazinha Cremasco
...e se piedade vos sobrar, senhor, tende piedade de mim.
(Elegia Desesperada, Vinicius de Moraes)
Começo de ano, tantos planos, tantas coisas a mudar.
Tantas coisas a fazer, e parado - como na canção - esperando a morte chegar.
Por que?
Tanta coisa precisando da sua atuação, e no entanto sente-se o menos importante do mundo, o que talvez menos possa fazer ao próximo mais próximo.
Promete preces. Não faz
Promete solidariedade. Não dá.
Promete amizade. Fica no seu canto.
Oferece seus serviços - o que precisar, estou às ordens - E se esconde.
Era para ele, que o poeta cantava:
...vamos pedir piedade, pra essa gente careta e covarde...
O ano se vai lerdo, e todos dizendo o quanto passou depressa.
Frases feitas e banais.
Vai chover, está calor, já estamos no fim de janeiro?
Passa depressa pela falta de esperança, de objetivo, de fé.
Morre lentamente pela desarmonia, insegurança, medo do novo. Desamor
Não!
Fica indignado com o próprio pensamento: amor tem muito.
Falta-lhe vida.
Mas é tão alegre...
Casca. Apenas casca.
...vamos pedir piedade, pra essa gente careta e covarde...
Lutou, brigou, morreu na praia. Foi derrotado.
Das poucas coisas de que tem certeza, é impedido de agir, por seu maior inimigo: ele próprio.
Letárgico.
Visto como uma grande alma, no fundo sabe que tem a alma pequenina e feia.
...vamos pedir piedade, pra essa gente careta e covarde...
Fraco, esconde-se nos que considera fortes.
Covarde.
Finge que lê, entende, viu, está acompanhando.
Mas vive trancado no seu mundinho de infelicidades e incertezas, culpando todos.
Todos pensam que tem bom humor, quando não passa de pessoa amarga, azeda, de mal com a vida.
...vamos pedir piedade, pra essa gente careta e covarde...
Bom, dizem que admitir já é um passo.
E agora, que leu dentro de si mesmo, quem sabe ainda seja possível mudar?
As vezes pensa que não. Não pode.
Outras vezes pensa - as pessoas que estão aí, fazendo e acontecendo, são exatamente iguais.
Descrentes, porém com discurso na ponta da língua.
Fachada.
Será que são todos iguais?
Ou é possível confiar em alguém?
...vamos pedir piedade, pra essa gente careta e covarde...
Ainda existe gente sensível e verdadeira nesse mundo de Deus?
E Deus?
...vamos pedir piedade, pra essa gente careta e covarde...
Assinar:
Postagens (Atom)
